O Cão como Co-terapeuta: A Aliança Arquetípica entre a Psicologia Analítica e a Afetividade Animal
- Raices Instituto

- 18 de mar.
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No cenário da saúde mental brasileira, o nome de Nise da Silveira surge como uma força disruptiva que antecipou décadas de estudos sobre a interação humano-animal. Nise foi (é) uma mulher, brasileira, nordestina e psiquiatra, transgressora e cientista da Alma. Nise, ao introduzir cães e gatos nos pátios do Hospital Engenho de Dentro (Rio), na década de 1940, Nise não estava apenas buscando uma "distração" para os pacientes; ela estava aplicando, na prática, os fundamentos da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Nise percebeu que os internos/clientes do hospital possuíam interesse pelos animais, que circulavam pela região, fruto de abandono.
Para Nise, o cão não era um objeto de terapia, mas um sujeito de relação, um "co-terapeuta" capaz de transitar por territórios onde a palavra humana muitas vezes falha.
O cão atuava de forma ativa e passiva, através da atenção dos clientes/pacientes do hospital, gerando vínculo, através dos olhares, toques e muito afeto.
O Ponto de Mutação: O Afeto como Catalisador Químico
Jung costumava comparar o encontro de duas personalidades ao contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambos se transformam. Na clínica niseana, o cão atua como essa substância reagente.
Clientes/Pacientes em estados de psicose profunda, muitas vezes mergulhados em um "autismo" defensivo ou fragmentados por alucinações invasivas, encontram no cão um ponto de ancoragem na realidade.
O animal oferece o que Jung chamava de aceitação incondicional, mas de uma forma pré-verbal. Enquanto o terapeuta humano pode ser projetado como uma figura de autoridade, perseguidora ou julgadora, o cão é percebido como um "igual" em termos de pureza instintiva.
O afeto que emana dessa relação não exige a mediação do ego complexo; ele toca diretamente o núcleo emocional, permitindo que o sujeito comece a reconstruir pontes com o mundo exterior.
A Função do Animal Auxiliar no Processo de Individuação
Dentro da cosmologia junguiana, o processo de Indivuação quanto ao tornar-se quem se é em sua totalidade, exige a integração das funções psíquicas (pensamento, sentimento, sensação e intuição) e o confronto com a Sombra.
O cão personifica o Arquétipo do Animal Auxiliar, figura onipresente em mitos e contos de fadas que guia o herói através de florestas sombrias e labirintos.
A Sombra e a Aceitação: O cão aceita o sujeito em sua totalidade, inclusive sua "sombra", seus cheiros, suas angústias e sua feiura. Essa aceitação espelhada permite que o indivíduo comece a aceitar partes de si mesmo que a sociedade rejeitou.
O Resgate dos Instintos: O homem moderno sofre de uma dissociação de sua base biológica. O contato com o cão — o toque no pelo, o calor do corpo, o ritmo da respiração — convoca a função Sensação, aterrando o paciente no corpo e no momento presente, o que é vital para o fortalecimento do Ego.
Criatividade, Ludicidade e o Espaço Potencial
Nise da Silveira sempre enfatizou que o cão estimula a criatividade e a expressão. Na psicologia analítica, a criatividade não é apenas produzir arte, mas a capacidade de gerar novas formas de existir.
O brincar com o cão cria o que o psicanalista Winnicott chamaria de "espaço potencial", mas que em Jung podemos interpretar como o terreno da Imaginação Ativa.
No ato de brincar, o paciente sai da rigidez defensiva. Não há certo ou errado no jogo com o animal; há apenas a fluidez do self. Essa liberdade lúdica é o primeiro passo para a reorganização do material simbólico interno. O sujeito que consegue "brincar" com o mundo externo através do cão, eventualmente adquire a coragem de lidar com seus próprios conteúdos internos de forma mais flexível.
O Vínculo como Reconstrução do Objeto Interno
Muitos indivíduos que buscam a terapia sofrem de falhas graves no desenvolvimento da personalidade devido a vínculos precoces rompidos ou tóxicos. O cão oferece uma oportunidade de re-parentalidade. Ao assumir o cuidado de um animal quanto a alimentá-lo, protegê-lo, dar-lhe afeto. Dessa forma, o sujeito exerce a função de cuidador, invertendo o papel de "paciente passivo" para "agente ativo".
Esse movimento de cuidar do outro é, projetivamente, um movimento de cuidar de si mesmo. O vínculo estável com o animal fornece uma base segura (na psicanálise, percebe-se pela Teoria do Apego) que serve de modelo para que o indivíduo possa, gradualmente, confiar novamente em seres humanos e no próprio processo terapêutico.
Quando falamos sobre esse cuidado através do prisma Junguiano, nesta relação também estão presentes os complexos materno e paterno. O cuidar, nutir, educar, zelar, proteger, amparar e entre outras funções, embasam-se em tais complexos.
Para o sujeito, introjetar as imagens e funções materna e paterna são essenciais para que siga sua jornada exercendo tais habilidades para consigo. Percebo que o sujeito que consegue cuidar de um animal, dando-lhe afeto e nutrição de diversas formas, consegue também perceber a si mesmo e deslocar tamanho cuidado para consigo.
A Visão de Nise e o Diálogo com o Inconsciente Coletivo
Nise da Silveira percebeu que o cão funcionava como um elo com o Inconsciente Coletivo. Em suas cartas a Jung, ela descrevia como o animal parecia absorver e mediar as tensões psíquicas do ambiente. O cão é um ser límiro: vive entre o mundo da natureza selvagem e o mundo da cultura humana.
Ele é o Psicopompo moderno. Assim como Anúbis guiava as almas no antigo Egito, o cão terapeuta guia o paciente através dos desertos do isolamento emocional. Ele é o guardião que não deixa o sujeito se perder na imensidão do inconsciente, mantendo-o vinculado à vida biológica, ao calor e ao movimento.
Uma Clínica da Presença
Para mim como psicólogo analítico e "cachorreiro" desde criança, a presença de um cão no ambiente terapêutico ou a análise da relação do cliente com seu animal doméstico é um material riquíssimo. O desenvolvimento da personalidade a partir dessa relação não é linear, é circular, onde cada interação fortalece o centro da psique, o Self.
Sujeitos que possuem e demonstram compaixão para com os cães manifestam-se com olhares empáticos diferenciados. Tratando-se de aspectos emocionais, me questionei sobre a Anima neste sentido.
Muitas vezes, o homem que possui uma Anima "subdesenvolvida" ou rígida tem dificuldade em expressar vulnerabilidade ou afeto por outros seres humanos, pois isso ameaça sua Persona de força e racionalidade.
O cachorro, por sua natureza instintiva e não-julgadora, oferece um "recipiente seguro". O sujeito projeta no animal a sua própria necessidade de cuidado e doçura, que são características da Anima. Ao dizer que o cão é "sensível" ou "precisa de carinho", o homem está, na verdade, começando a reconhecer essas mesmas necessidades em sua própria Alma. Sabe a idéia que os cães são reflexos de seus tutores? Pois é!
Jung descreve quatro estágios de desenvolvimento da Anima, que são elas: Eva, Helena, Maria e Sofia.
A transição entre o instinto puro e o sentimento diferenciado passa pelo vínculo.
Quais são os impactos?
Ao cuidar da rotina, da saúde e do bem-estar emocional de um cachorro, o sujeito é forçado a sair do egoísmo intelectual e entrar na esfera da Eros, a conexão.
De que forma há a manifestação?
A Anima deixa de ser uma figura fascinante e perigosa, que causa humores instáveis ou projeções em mulheres distantes, e passa a se manifestar como uma capacidade real de zelo e empatia.
Perceba que um sujeito com uma Anima pouco integrada tende a ser seco, excessivamente lógico ou emocionalmente isolado. Desta forma, a relação com o cão introduz a espontaneidade.
Há muita importância no Brincar, pois o ato de brincar com o cachorro exige que o homem "perca o controle" e a seriedade. Esse movimento desarma as defesas do Ego, permitindo que a Anima se manifeste de forma lúdica.
Ainda, as manifestações por Expressão Vocal e Corporal, mostram como é comum ver homens mudarem o tom de voz ou a postura ao falar com seus cães. Surge assim a energia psíquica para a CRIATIVIDADE?!.... Essa "suavização" é a Anima vindo à tona, permitindo que o sujeito experimente uma gama de sentimentos que ele normalmente reprimiria em interações sociais.
Enfim, o legado de Nise da Silveira nos ensina que a cura não é um processo puramente intelectual. Ela é uma experiência afetiva.
O cão, com sua lealdade inabalável e sua presença silenciosa, torna-se o catalisador que transforma a dor em expressão e a solidão em convivência.
Em última análise, o desenvolvimento que ocorre junto a um cachorro é o resgate da nossa própria humanidade através do olhar do animal.
E você, qual é a sua relação com os cães? Já vivenciou a experiência desse afeto? Me conte nos comentários.
Um abraço,
Julian Navarro - Psicólogo Analítico Junguiano
CRP/06 172600




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