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A Ilusão do "Melhor do Ano": Uma Crítica Junguiana às Campanhas de Validação Coletiva no Instagram


No final de cada ano, especialmente em dezembro, as redes sociais como o Instagram se transformam em um palco efêmero de premiações improvisadas. Perfis dedicados aos "Melhores do Ano da Cidade X" surgem como cogumelos após a chuva, promovendo listas que abarcam desde psicólogos e médicos até arquitetos, advogados, empresas e comércios locais. O mecanismo é simples e sedutor: profissionais e negócios incentivam seus seguidores a marcarem o @ de seus perfis favoritos em publicações específicas, e a "vitória" é apurada pela quantidade de votos acumulados, ou seja, por quem mais teve marcação do próprio perfil em cada categoria.

Essa dinâmica, que parece inofensiva e democrática, revela-se, sob a lente analítica de Carl Gustav Jung, um ritual moderno de inflação do ego e conformismo coletivo, distante da profundidade psíquica que define a existência autêntica. Nesta crítica, exploro como essa busca pelo rótulo de "melhor" perpetua uma aferição vazia, especialmente para profissionais como o psicólogo junguiano, e como ela entrelaça conceitos como ego, persona, complexos, contágio psíquico e o movimento de manada, suprimindo a verdadeira individuação em favor de uma validação superficial.


Afinal, O Que Significa Ser o "Melhor"? Uma Aferição Vazia e Subjetiva


Antes de mergulharmos nos abismos da psique, é essencial questionar o cerne dessa fenomenologia social: o que, afinal, significa ser o "melhor"? Melhor em quê, exatamente? Em uma era de métricas digitais, o critério parece reduzido a um simples algoritmo de popularidade: o número de curtidas, comentários e marcações. Para um médico, seria o "melhor" aquele que acumula mais indicações em posts sobre saúde? Para um arquiteto, o que mais publica renders (renderizações) impressionantes ou recebe elogios efêmeros? E para uma empresa de comércio local, o sucesso se mede pelo engajamento de seguidores que, muitas vezes, nem são clientes reais, mas sim uma rede de contatos virtuais?

Essa aferição é intrinsecamente vazia porque ignora os parâmetros qualitativos que definem a excelência em profissões de serviço. Como se mede a empatia de um psicólogo em sessões confidenciais, ou a precisão ética de um advogado em negociações invisíveis ao público? O "melhor" aqui não é avaliado por pares qualificados, por métricas profissionais rigorosas ou por impactos reais na vida das pessoas, mas por uma votação popular que privilegia a visibilidade online sobre a substância. Melhor para quem? Para o indivíduo ou empresa que busca autopromoção, sim, mas para a sociedade? Essa validação é melhor para o ego inflado do vencedor, que se vê coroado por uma multidão anônima, ou para os perdedores, que internalizam uma hierarquia arbitrária? E por quem? Por seguidores que, impulsionados por lealdade passageira ou pressão social, votam sem critério profundo, transformando o processo em um jogo de cliques em vez de uma avaliação meritocrática.

Jung, em sua obra Psicologia e Alquimia, alertaria que tal superficialidade reflete uma projeção coletiva do inconsciente: o "melhor" não é uma conquista interna, mas uma ilusão projetada para mascarar inseguranças. Essa medição quantitativa, alheia a qualquer métrica psíquica ou ética, reduz o ser humano a um produto de mercado, onde o valor é ditado pelo algoritmo e não pela integração da psique.

E ainda, o perfil no Instagram reflete a imagem da Persona, uma Persona Digital, com @, posts (publicações) organizadas em cores, formatos e padrões, ou diversas, mas ainda, a busca de passar uma imagem meramente aceita que resulte engajamento ao ponto de aumentar o número de seguidores, como se de fato estes validassem esta Persona online, que acaba por ser tridimensional.


O Psicólogo e a Aferição Vazia: Um Contrassenso Junguiano


Para mim como psicólogo analítico junguiano, essa dinâmica assume contornos particularmente paradoxais e irônicos. Nós, que nos dedicamos à exploração do inconsciente, à amplificação de arquétipos e à individuação – o processo de tornar-se inteiro, integrando sombra e anima/animus, nos vemos compelidos a participar de um ritual que é o oposto de nossa essência profissional. Imagine um terapeuta, treinado para guiar o paciente através de complexos autônomos e da persona social, agora mendigando votos em um feed de Instagram. Essa aferição vazia não só desvirtua nossa prática, mas a contradiz: como podemos afirmar a autenticidade do self se nossa "excelência" é medida por uma popularidade que ignora o trabalho invisível da análise?

Jung descreveria isso como uma inflação do ego, onde o eu consciente se expande desproporcionalmente, identificando-se com imagens grandiosas de superioridade. Em Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, ele adverte que o ego, quando não confrontado com o inconsciente, torna-se megalomaníaco, buscando validação externa para compensar uma fragilidade interna. Para o psicólogo, essa campanha anual é uma armadilha: ao incentivar seguidores a votarem, criamos uma persona – a máscara social que Jung define como o adaptador ao mundo exterior – que é polida e performática, mas vazia de profundidade. A persona do "melhor psicólogo da cidade" é construída não pela transformação de pacientes, mas por likes que reforçam uma imagem idealizada, distante do confronto com a sombra, esse aspecto reprimido da psique que contém nossos defeitos e potenciais não realizados.

Complexos, esses núcleos emocionais autônomos que Jung via como fragmentos psíquicos carregados de energia, também são ativados aqui. O complexo de inferioridade pode impulsionar o profissional a participar freneticamente, temendo o anonimato; já o complexo de superioridade o leva a manipular seguidores para inflar sua contagem de votos. No caso do psicólogo, essa dinâmica é especialmente corrosiva: enquanto trabalhamos para dissolver complexos nos pacientes, nos expomos a um ciclo vicioso onde nosso próprio complexo de reconhecimento é alimentado por uma validação externa fútil. É uma aferição vazia porque não mede o impacto real – a jornada de individuação do analisando –, mas sim uma métrica social que ignora o numinoso, o sagrado encontro com o self. Jung diria que isso é uma regressão ao estágio pré-individuação, onde o indivíduo permanece preso à adaptação coletiva, longe da vocação única que define sua alma.


Contágio Psíquico, Movimento de Manada e a Supressão da Vontade Própria


Essa ilusão coletiva não se limita ao indivíduo; ela se alastra como um contágio psíquico, conceito junguiano que descreve a transmissão inconsciente de afetos e ideias entre membros de um grupo, criando uma atmosfera emocional compartilhada que suplantam o juízo racional. No Instagram, as campanhas de "melhores do ano" funcionam como um vetor perfeito para esse contágio: um post viraliza, seguidores marcam amigos por pressão implícita de reciprocidade ("vote em mim e eu voto em você"), e logo uma onda de entusiasmo coletivo toma conta. É o movimento de manada em sua forma digital – Jung, em A Prática da Psicoterapia, compara isso às massas arquetípicas, onde o indivíduo perde sua autonomia psíquica, dissolvendo-se no inconsciente coletivo.

Esse contágio suprime a própria vontade, que para Jung é a força propulsora da individuação, guiada pelo self e não pela opinião alheia. Ao participar, profissionais e empresas abdicam de sua singularidade: o psicólogo, em vez de cultivar uma prática autêntica alinhada à sua sincronicidade pessoal, alinha-se à manada, votando e sendo votado em um ritual que privilegia a quantidade sobre a qualidade. A análise vazia por maior votação – onde o "vencedor" é coroado não por mérito intrínseco, mas por mobilização de rede – distancia o indivíduo de sua vontade profunda. Jung alertaria para o risco de possessão pelo arquétipo da puer aeternus, o eterno menino que busca aprovação eterna sem amadurecimento, ou pelo senex, o velho sábio distorcido em autoridade vazia.

Empresas, por sua vez, replicam esse padrão em escala corporativa: o comércio local que "ganha" o título não o faz por inovação ética ou impacto comunitário, mas por uma campanha de marketing que infecta o coletivo com promessas de excelência ilusória. O contágio psíquico aqui opera como uma histeria moderna, onde a manada ignora critérios reais – sustentabilidade, equidade, profundidade – em favor de um frenesi passageiro. O resultado? Uma supressão coletiva da vontade autêntica: profissionais que, em vez de se dedicarem ao ofício por paixão interna, se curvam à lógica do like; empresas que priorizam engajamento superficial sobre responsabilidade social.


Rumo à Individuação: Um Convite à Reflexão Além do Efêmero


Em síntese, essas campanhas de "melhores do ano" representam não uma celebração de excelência, mas uma armadilha psíquica que infla o ego, rigidifica a persona e ativa complexos adormecidos, tudo sob o manto de um contágio coletivo que dissolve a vontade individual na manada digital. Para o psicólogo junguiano, essa aferição vazia é um contrassenso profundo: enquanto nossa teoria nos convida a navegar o inconsciente em busca do self, participamos de um espetáculo que o nega, medindo o invisível pelo visível e o eterno pelo passageiro.

Jung nos exorta, em Memórias, Sonhos, Reflexões, a resistir às ilusões coletivas em prol da individuação – o caminho solitário para a totalidade. Em vez de mendigar votos, profissionais e empresas deveriam questionar: o que me torna "melhor" não é o aplauso da multidão, mas a fidelidade à minha vocação interna. Que esse final de ano, em vez de nos arrastar para o contágio da manada, nos impulsione a uma autoanálise genuína, onde o verdadeiro "melhor" emerge não de cliques, mas da integração da psique. Somente assim, escapamos da aferição vazia para a plenitude do ser.

E você, considera-se o melhor do ano? Em que? Para quem? Para quem? O desejo de ser o melhor do ano, olha para qual direção e está a serviço de que?


Espero que tenha aproveitado a leitura, que foi feita por mim, Julian Navarro, que não busca e deseja ser o melhor do ano, que se reconhece imperfeito e um eterno aprendiz.


Julian Navarro

CRP/06 172600

 
 
 

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