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O Descompasso Coletivo e a Sombra Materialista

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Desde 1970 vem sendo informando que a Terra está no vermelho, isso refere-se ao fato de que a humanidade está consumindo recursos naturais mais rapidamente do que o planeta é capaz de se regenerar. Isso é popularmente ilustrado pelo conceito do Dia da Sobrecarga da Terra (em inglês, Earth Overshoot Day) que aponta um adiantamento da data limite do consumo a cada ano que passa, reduz o prazo pois aumentou o consumo.


Proponho neste artigo a analogia que os recursos naturais como um "salário" que já está no vermelho a partir de agosto. Isso aponta para uma hybris coletiva, um ego da humanidade que se tornou excessivamente inflado e desconectado de suas raízes instintivas e do Self (o centro da totalidade psíquica) que nos conecta à totalidade da vida. Carl Gustav Jung, em sua vasta obra, frequentemente nos alertava sobre os perigos da unilateralidade e da dissociação. Se a consciência coletiva se volta apenas para a expansão material e o consumo, negligenciando o valor intrínseco da natureza e dos ciclos naturais, estamos testemunhando uma manifestação da Sombra Coletiva.


Essa sombra não é apenas a negação do nosso lado "mau", mas também a repressão de aspectos vitais e instintivos. A natureza, com suas estações irregulares, está se tornando um espelho arquetípico da nossa própria desregulação interna. Ela grita a dor de um inconsciente que foi ignorado, um anima mundi (alma do mundo) ferido pela nossa postura exploratória e desequilibrada. O descompasso dos ciclos naturais é um símbolo vivo do nosso próprio afastamento dos ritmos arquetípicos que regem a existência.

Já reparou que as estações climáticas não estão mais marcadas e bem separadas como antes? Há calor no inverno, há geada no verão... o que isso tudo tem a ver com cada pessoa que habita este planeta? Esse descompasso, acontece somente com a Terra? Ou estamos também descompassados, fora do eixo e do ritmo natural?


Proponho também que sintomas como a Ansiedade reflete a fuga do vazio e a fragmentação do Ego

Dessa maneira que a ansiedade atua como um sintoma desse consumo em excesso e da corrida sem destino é perspicaz. De pessoas que estão sempre agitadas, correndo sem saber aonde exatamente pretendem chegar, além da exaustão e da desconexão com o presente.

Do ponto de vista junguiano, a ansiedade pode ser interpretada como a patologia de um ego excessivamente orientado para o exterior, que busca preencher um vazio existencial através da aquisição e da atividade incessante. Esse ego, desconectado do axis mundi que deveria ligá-lo ao Self, vive em constante ameaça de fragmentação. A falta de "chão", de um centro interno sólido, gera essa sensação difusa de medo e urgência.

A busca frenética por "fazer" e "ter" pode ser vista como uma tentativa desesperada de evitar o confronto com o vazio interior, com a falta de sentido que emerge quando a vida é destituída de sua dimensão simbólica e arquetípica. O orgulho nessa corrida pode ser uma persona bem-sucedida, mas que esconde um ego exaurido e alienado de sua própria alma. E essa corrida sem fim, onde a persona profissional se empodera e chega a quase unaleralizar, flerta constantemente com o bornout.

 

Destaco o sintoma como Depressão sendo a possibilidade Enantiodrômica e com um Mergulho ao Inconsciente.

A enantiodromia atua como força compensatória quando um dos pólos/lados está em exagero e em erupção, como um vulcão que ganha sempre mais força através dos afetos que o alimentam, essencialmente pelos complexos. Nesta perspectiva, se a ansiedade é o ápice da extroversão patológica, a depressão é seu oposto compensatório radical. É o "retorno para si, para a essência", um mergulho forçado no inconsciente. Jung via a depressão (melancolia, em alguns de seus termos) não apenas como uma doença a ser curada, mas como um processo potencialmente transformador – um descensus ad inferos, uma descida ao "inferno" pessoal, como propôs Dante Alighieri na Divina Comédia, ainda, no caminho do Louco em sua jornada de Vida.

Nesse estado, a energia libidinal (psíquica ou energia/pulsão psíquica) que antes era projetada para fora é abruptamente retirada, forçando o indivíduo a confrontar o que foi negligenciado internamente. É uma compensação do inconsciente para a unilateralidade da consciência. A perda de incentivo e busca exterior, embora dolorosa, pode ser a psique clamando por uma reavaliação radical dos valores e do propósito. É como se o Self estivesse forçando uma introspecção profunda, um "retorno para casa", mesmo que o caminho seja através das trevas e da dor. O que o ego rejeitou ou não conseguiu integrar, o inconsciente o impõe através do sofrimento.

 

O Burnout como “O Colapso do Herói Egóico”

O burnout, nesse contexto, é o colapso físico e psíquico do "herói egóico" que tentou, e falhou, em sustentar essa corrida incessante. É o momento em que a energia se esgota completamente, e o corpo e a alma se recusam a continuar sob as condições impostas pela consciência unilateral. É o grito final do sistema que não aguenta mais a dissociação entre o que se exige e o que é intrinsecamente possível ou significativo. Isso nos remete ao mito de Sísifo, que amaldiçoado carrega a pedra sempre morro acima, buscando sempre transpor tal pedra de tal morro, até a exaustão, e no dia seguinte, retoma do zero. Será que devemos carregar a pedra impiedosamente ou poderíamos por alguns instantes, sentar-nos, olharmos a pedra e dialogarmos com a mesma? Quais respostas poderiam surgir a Sísifo que ainda não obteve por apenas erguer a pedra e buscar transpor o morro a força? Será que o caminho tem que ser forçado ou pode ser analisado, questionado e vivenciado de diversas maneiras?

 

E então, pergunto: Qual o Símbolo Emergente?

Considerando tudo isso, a provocação que emerge é: se esses sintomas (ansiedade, depressão, burnout) são manifestações desse descompasso macro/micro, qual seria a finalidade teleológica desse sofrimento coletivo, do ponto de vista da psicologia analítica? Que tipo de símbolo unificador ou de nova atitude arquetípica a psique coletiva estaria tentando engendrar através dessa crise?

Será que a experiência desse descompasso extremo não é a condição necessária para o surgimento de uma nova consciência, uma que possa integrar a materialidade com a espiritualidade, a tecnologia com a natureza, o ego com o Self, e os ritmos humanos com os ritmos cósmicos? Cronos e Kairós? Estaremos nós, como humanidade, em um processo de individuação coletiva forçada pela dor e pelo caos? Ordem e Caos? Qual o papel do psicólogo analítico, do "alquimista da alma", nesse caldeirão de transformações?

Convido você a mergulhar nesta teoria não apenas descrevendo um estado de coisas, mas a uma profunda busca pelo sentido por trás desses sintomas aparentemente caóticos. É um chamado para olhar para o inconsciente coletivo e tentar discernir as imagens e os caminhos que buscam restabelecer o equilíbrio e a totalidade.

O que mais emerge para você a partir dessas ponderações? Comente aqui e contribua com a sua visão a este estudo.

Com carinho, Julian Navarro – CRP/06 172600 – psicojunguiano@gmail.com 

 

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1 comentário


alsina.navarro
11 de nov. de 2025

OK, mas...passo a passo...Nas 5 primeiras linhas fala do consumo da terra e regeneração. Lembremos que ciclos na terra sempre existiram. É só observar os anéis de crescimento de um corte no tronco de uma arvore de 1000 anos. Vemos períodos, anos, de seca e períodos húmidos. E a vida segue. Vulcões expelindo lava, placas tectónicas colidindo, terremotos acontecendo, explosões solares periódicas alterando a radiação eletromagnética na terra. E a vida segue...

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